Would you like to learn to fly?
Would you like to see me try?
***
Escrevo porque foi a última coisa que me restou...
Eu errei muito e em muitos sentidos. Fui fraca e egoísta. Fui infantil e imatura. Eu me deixei derrotar. Assisti minha queda como um espectador distraído. As coisas se partiram ao meio. Nós nos partimos ao meio. Isso era inevitável? Talvez não. Mas sozinha eu não tive força para brigar contra o destino; eu ainda não estava pronta.
Mas não culpe só a mim, pois foi você quem decidiu. Minha revolta foi uma resposta necessária a tanto tempo de inatividade. Eu precisava reagir: fiz isso me debatendo. Não me culpe completamente, você também fez sua escolha... Você escolheu voar, suas asas já estavam prontas.
Mas agora você está longe demais. Mal consigo te ver de tão alto...
Você se lembra dos ratos com asas? Pois voltarei para o meu bueiro. Não é mais necessário que eu te acompanhe. Eu nem posso mais.
Meu amor, você já está salvo.
Chegou a hora de descansar em paz.
28 Novembro 2009
23 Novembro 2009
De repente eu acordei. Meus olhos doíam, mas eu forcei. Quando um pouco de luz tocou minha retina eu vi onde estava: num quarto branco, tosco, meio sujo. Deitava numa cama grande, onde caberia mais uma ou duas pessoas. De um lado havia um quadro, no quadro um castelo. Do outro uma espada, ao lado da espada um terço. Eu estava sozinha e com sono. Tinha uma impressão fraca de que em tudo aquilo havia sentido, mas era só uma impressão fraca. Sentia que tinha sonhado, que no sonho eu morava no castelo, que fugia do castelo seguindo a espada, e que assim chegava naquele quarto; daquele quarto era expulsa pelo terço, assim como é expulso um demônio. Mas eu ainda estava ali, só que agora estava acordada. Eu não lembrava do sonho, não podia revivê-lo na memória, só podia sentir a tal impressão fraca. Eu tentei levantar, mas meus pés doíam mais que os olhos. Minhas pernas tremiam, eu havia dormido demais. Me deixei ficar deitada, acordada, pensando... Resolvi que sairia dali, nem que fosse rastejando. E foi rastejando que eu saí. Mas quando meu corpo sonolento tocou o chão frio e duro eu não quis mais. Eu olhei em volta e não consegui mais pensar em nada, eu só sentia o frio e a dor. Eu me agarrei, desesperada, ao pé da cama e me arrastei de volta para cima. Me cobri, e como não achasse nada que me fizesse voltar ao sono, enfiei meu rosto no travesseiro macio, até que minha lucidez fosse mais uma vez substituída pelo alívio do sono.
E eu dormi. E sonhei que não precisava mais sonhar. Vi a vida, mais uma vez, preenchida de sentido. Senti como se o único caminho possível fosse abrir-me para a realidade, embriagar-me de realidade. E assim voltei a sonhar...
A distant ship's smoke on the horizon
You are only coming through in waves
Your lips move but I can't hear what you're saying
I can't explain, you would not understand
This is not how I am
I have become comfortably numb
*Letra*
16 Novembro 2009
Eu tenho um corpo. Eu vivo num corpo. Eu sou um corpo.
O corpo é algo limitado: é possível encostar em outros corpos, mas é impossível penetrá-los. E tocar é muito pouco, tocar é quase nada. Eu não me contento com o mero contato: eu quero a fusão.
Eu quero misturar; quero alterar o que sou por meio do outro, de outros. Presa aqui dentro, sozinha, não posso. Sozinha eu não posso e nem quero.
Mas só encostando eu não sinto...
Sou insensível demais: eu sou bruta. Não quero a superfície, não quero a sutileza.
Quero ultrapassar o limite, quero muito mais que o toque, quero o entrelaçamento completo, profundo, silencioso, e impossível.
14 Novembro 2009
Then something happened which unleashed the power of our imagination
We learned to talk
There's a silence surrounding me
I can't seem to think straight
I'll sit in the corner
No one can bother me
I think I should speak now
I can't seem to speak now
My words won't come out right
I feel like I'm drowning
I'm feeling weak now
But I can't show my weakness
I sometimes wonder
Where do we go from here
All we need to do is make sure we keep talking
10 Novembro 2009
Só deu uma mordida e depositou a maçã na mesa. Porque alguma coisa desconhecida estava suavemente acontecendo. Era o começo -- de um estado de graça.
Só quem já tivesse estado em graça, poderia reconhecer o que ela sentia. Não se tratava de uma inspiração, que era uma graça especial que tantas vezes acontecia aos que lidavam com artes.
O estado de graça em que estava não era usado para nada. Era como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existia. Nesse estado, além da tranqüila felicidade que se irradiava de pessoas lembradas e de coisas, havia uma lucidez que Lóri só chamava de leve porque na graça tudo era tão, tão leve. Era uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe.
(...)
No estado de graça, via-se a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganhava uma espécie de nimbo que não era imaginário: vinha do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passava-se a sentir que tudo o que existe -- pessoa ou coisa -- respirava e exalava uma espécie de finíssimo resplendor de energia. Esta energia é a maior verdade do mundo e é impalpável.
(...)
As descobertas naquele estado eram indisíveis e incomunicáveis.
(...)
Depois lentamente saiu daquela situação. Não como se estivesse estado em transe -- não houvera nenhum transe -- saía-se devagar, com um suspiro de quem teve o mundo como este o é. Também já era um suspiro de saudade. Pois tendo experimentado ganhar um corpo e uma alma e a terra e o céu, queria-se mais e mais. Mas era inútil desejar: só vinha espontaneamente.
(...)
O Deus sabia o que fazia: Lóri achava que estava certo o estado de graça não nos ser dado frequëntemente. Se fosse, talvez passássemos definitivamente para o "outro lado" da vida, que esse outro lado também era real mas ninguém nos entenderia jamais: perderíamos a linguagem em comum.
Também era bom que não viesse tantas vezes quantas queria: porque ela poderia se habituar à felicidade. Sim, porque em estado de graça se era muito feliz.
***
Essa foi muito melhor que a do Proust!
Eu vou mesmo morrer. Isso tudo vai mesmo acabar. E quando eu repousar em Deus, quando eu for na eternidade, eu não serei mais eu: eu serei absolutamente.
E ser absolutamente é quase não ser porque o que eu conheço como existência é absurdamente precário. É quase nada diante do absoluto, mas é tudo o que eu tenho.
Existe um fim. E ainda que depois da morte haja o Ser, eu acabarei. Morrerá o que entendo, o que sinto, o que sou. De tudo aquilo que eu penso ser restará apenas fracas lembranças.
Eu morrerei. E, ainda que não morra, morrerei para sempre.
Que alívio, meu Deus..! Que alívio!
26 Outubro 2009
I find it kind of sad
The dreams in which I’m dying are the best I’ve ever had
I find it hard to tell you
I find it hard to take
When people run in circles its a very, very
Mad world
Livia corria atrás do coelho. Maldito coelho branquinho que tinha fugido da jaula! Ela o seguia saltitante: os dois em sincronia se embrenhavam pelo mato. O mato era alto e arranhava. Daqueles matos que pinicam e deixam por todo corpo finíssimos cortes irritantes. Mas o coelho ia rápido e Livia precisava alcançá-lo. Coelhinho travesso e desobediente! Não parava de brincar de pega-pega.
Livia se esconde atrás dum espesso arbusto, dali via o animalzinho cheirar o ar, assustado, sentindo-se perdido. Ela sorri, divertindo-se com aquele pequeno sofrimento, aquele desespero inocente... O coelhinho pula alto e quando suas patas tocam o chão ele some: caira numa armadilha. Livia sente o impulso de socorrê-lo, mas não era a única que espiava a cena...
Um caçador de botinas e facão se aproxima do buraco, no rosto um sorriso diabólico. Livia se encolhe de medo atrás do arbusto. A mão do homem se enterra no buraco e puxa o coelho pelas orelhas, erguendo-o no ar. O bichinho esperneia, solta gemidos, chora. Livia também chora. Um choro lento, silencioso, amargurado. O coelho se desespera, luta... Mas é fraco e num golpe certeiro o caçador corta-lhe a pata.
No ar ressoa uma risada de escárnio, no rosto de Livia rola uma lágrima de revolta, de impotência. O coelhinho é atirado ao chão sangrando. O caçador some triunfante com seu prêmio nas mãos. Livia se aproxima do coelho que sangra, sangra... Ela o aperta contra o peito, ela lhe pede perdão, ela também sangra.
O coelhinho finalmente morre. Livia cava um outro buraco e o enterra. Pede a Deus que guarde sua alma. Seca as lágrimas e decide nunca mais brincar de pega-pega...
I pray the Lord my soul to keep.
If I should die before I wake,
I pray the Lord my soul to take.
Agora, finalmente, me entrego ao Sono...
E considero este como um dos dias mais importantes, produtivos e especiais da minha vida.
Boa noite.
23 Outubro 2009
" - O decoro, assim como a discreta flor que traz em seu colo, não é capaz de ocultar as palpitações de seu coração, transformando-se, isto sim, num traidor de tão ligeiras palpitações. Sua imaginação está contaminada, sua reserva silenciosa respira um amável desejo, e enquanto a complacente deusa Ocasião vier a sacudir a pequena árvore, o fruto tombará sem demora.
- E assim -- disse Aurelie -- , quando se vê abandonada, repudiada e rejeitada, quando na alma de seu desvairado amante o mais elevado vem ocupar o lugar do mais baixo, e em vez do doce cálice do amor ele lhe estende a amarga taça do sofrimento...
- Seu coração se rompe -- exclamou Wilhelm --, despedaça-se todo o arcabouço de sua vida, irrompe-lhe a morte do pai, e o belo edifício vem abaixo, de uma só vez.
Wilhelm não se dera conta da maneira expressiva com que Aurelie pronunciou as últimas palavras. Voltado que estava para a obra de arte, para sua coerência e perfeição, não podia suspeitar que sua amiga sentira um efeito em tudo diverso, nem que aquelas dramáticas imagens sombrias houvessem despertado nela uma profunda e particular dor."